A baixa autoestima costuma ser associada à falta de confiança, à autocrítica e à dificuldade de reconhecer o próprio valor. Mas será que cuidar mais de si, aprender a dizer “não” e repetir afirmações positivas são suficientes para transformar a relação que uma pessoa estabelece consigo mesma?
Quando olhamos pela perspectiva da psicanálise, a baixa autoestima pode ser compreendida para além de um conjunto de comportamentos que precisam ser corrigidos. Ela pode estar relacionada à maneira como você se percebe, se posiciona diante do outro e se relaciona com seus próprios desejos, exigências e faltas.
Entendendo baixa autoestima e autocuidado
A baixa autoestima costuma expressar-se por autocrítica intensa, dificuldade em aceitar elogios, medo de desapontar e evitar situações desafiadoras. O autocuidado não se resume apenas a uma lista de hábitos ou a momentos de conforto; envolve também a capacidade de reconhecer as próprias necessidades, limites e desejos. Trabalhar a autoestima não significa apenas criar rotinas ou aprender a dizer “não”, mas também compreender o que torna tão difícil cuidar de si e como a relação com o outro participa dessa dinâmica.
Por que cuidar de si pode ser tão difícil?
É comum ouvirmos que precisamos nos colocar em primeiro lugar, mas, na prática, algumas pessoas sentem culpa ao descansar ou dificuldade em dizer não. Podem saber que precisam descansar e, ainda assim, sentir culpa quando não estão produzindo. Podem reconhecer que precisam estabelecer limites, mas continuam dizendo “sim” quando gostariam de dizer “não”. Também podem compreender que não precisam da aprovação de todos e, mesmo assim, sofrer profundamente diante de uma crítica.
Saber o que fazer não significa necessariamente conseguir fazê-lo.
Existe uma diferença entre compreender racionalmente algo e conseguir se posicionar diante disso.
A baixa autoestima também aparece nas situações do cotidiano
Por exemplo:
- Você recebe um elogio, mas pensa que a pessoa está apenas sendo gentil.
- Você quer dizer não, mas acaba aceitando para não decepcionar alguém.
- Você se compara constantemente e sempre encontra algo em que acredita ser inferior.
- Você precisa da confirmação do outro para se sentir segura sobre suas próprias escolhas.
São situações diferentes, mas algo pode atravessá-las: a maneira como essa pessoa se posiciona diante de si mesma e do olhar do outro.
Não se trata de “dedo podre” ou falta de força de vontade. Muitas vezes, existem padrões que se repetem.
Autocuidado também pode significar escutar o próprio desejo
Existe uma diferença entre fazer o que dizem ser bom para você e reconhecer o que realmente faz sentido para você. Cuidar de si nem sempre significa dizer não, se afastar, descansar ou se colocar em primeiro lugar.
Às vezes, começa ao perguntar o que deseja, o que suporta e quais escolhas faz para ser reconhecida pelo outro. Mais do que uma obrigação, o autocuidado pode abrir espaço para uma relação menos automática consigo mesma.
Quando buscar acompanhamento psicológico?
Se a baixa autoestima interfere nos relacionamentos, escolhas ou na forma como você se percebe, buscar acompanhamento profissional pode ser importante. A psicoterapia não é ensinar alguém simplesmente a “se amar mais”; existe espaço para falar sobre aquilo que se repete e investigar os conflitos presentes nessa relação consigo mesma. É possível compreender aspectos da própria história que ainda não estão tão evidentes e, em vez de oferecer respostas prontas, o trabalho clínico permite construir novas perguntas para que, a partir delas, seja possível encontrar novas possibilidades diante daquilo que se vive.
Conclusão
Baixa autoestima não é apenas enxergar defeitos em si, mas pode aparecer na busca por aprovação, na comparação e na dificuldade de se posicionar.
Por isso, talvez o caminho não seja só aprender mais uma técnica de autocuidado, mas compreender por que cuidar de si e reconhecer o próprio desejo se tornaram tão difíceis.